Pois sempre me sinto perdida. Mesmo quando estou em casa, sem luz, me sinto assim um pouco zonza, com uma vontade lá no fundo de chorar. É a falta de graça das coisas, que começam sempre bem mas caem na insistente forma de pensar: viva a monotonia.
Tenho sentido um medo terrível do mundo acabar e eu ter ficado em casa, sem ter provado toda a maravilhosa tecnologia japonesa e todos os benefícios da era moderna. Meu sujeito me adorna dialeticamente entre a vaidade e a desconsideração.
Devo perdoar a todos mas não consigo perdoar o meu pai. Estou acostumada a fazer todas as coisas no escuro porém a dor do seu abandono voluntário me jogou na cara o quanto sou despresível. A troca é a vida.
Um casal de cachorros só se ama quando ela está no cio. Aí eles dormem juntos, andam pelos matos e brincam descompromissadamente. Passada essa fase ele volta à rotina de ir para a garagem procurar melhores oportunidades. E ela espera o próximo cio.
Devemos fazer cenas, sempre. Só assim chamamos atenção. Grunhir sem razão deve ser a máxima da existência. Dar voltinhas ao redor da comida e choramingar por um olhar qualquer. Depois se cansar e mudar de ambiente.
Minha menstruação agora é como uma doença já esperada. A barriga dói a cada primeiro dia do ciclo. O pior é quando me dói a psique. Grito por dentro e mordo minha raiva dessa merda de vida.
Todas as placas informativas, descritivas, educativas ou obrigatórias no Brasil são relativas. Só valem de acordo com a vontade de quem as lê – ou de quem as coloca. Um PARE pode virar um foda-se facilmente.
O candomblé é o rito do poder do mistério. Onde se pode ir, como se pode ir, o que se pode comer ou o que está por debaixo de cada balaio faz-se a relação entre os adeptos. Quanto mais panos mais feitiço. É como uma dançarina do ventre. Véu e revelação.
1,2,3,
2,1,3,
3,1,2,
Bonitinha a matemática!
Me acusam de delirante. Busco afetos impossíveis, não dialogo com o local, logo, não quero o possível. Cruel coração desejante, que almeja o infinito e acaba na triste empiria de simplesmente ser cotidiano.
Se penso que tenho mesmo que amar o meu vizinho logo reflito: será o meu vizinho tão diferente de mim que irei deseja-lo ou terei um tédio imenso ao imaginar que a única coisa que irei encontrar será o meu espelho?
Ando tão perdida que nem tarô, nem jogo de búzios e nem conversas com Exu tem dado jeito. Não sei mesmo o que fazer, abandono o que construí ou me resigno ao destino que insiste em me tirar o sono e me acordar com a lembrança do desejo.
Encontrar velhos amigos é como acelerar o carro. Sei bem como fazer, sei até virar o volante, acredito na tecnologia mas o tempo, ou meu ou o do carro, me faz sentir que a pista, apesar de comum, pode ter um novo buraco daqui a pouco mesmo.
Queria ser muito mais feiticeira do que sonho. Manipular as energias do universo é uma espécie de transa narcísica, falamos com o todo através daquilo que mais queremos. Quero tudo e nada mais me importa.
Amo o álcool. Sua força em me colocar meio estranha é como bocejar com muito gosto em frente ao Maestro. Nada mais me convence. Apenas o estranho desejo de beber mais e mais a cada dia agonizante.
Sou fraca, principalmente no que escrevo. Repetitiva, como nos personagens que interpreto ou nos falsos amores que vivo. Vivo ou invento? Penso que de noite fujo da ressaca que me imponho por distração. E corro para escovar os dentes.
Admito: estou viciada em internet. É uma espécie de diálogo com o impossível, com o inacreditável, com um amor que é apenas meu que é tão belamente dolorido e tão facilmente vivido por quem tem a cabeça no infinito. Ou seja, eu.
Ando burra. Se começo a ler logo adormeço. Imposição do inconsciente que me faz travar o racional que tanto almejo. Acho que meu cérebro pede pausa por pura preguiça, assim como todo o meu corpo que pede sexo passivo.
Não sei porque insisto em dividir quando a ordem do dia é negar. Me perco na entrega, não jogo, não delimito justamente nos momentos onde deveria me afastar. Truco! Blefo onde não há mesa e no meu quarto ganho todas de todos. Sozinha mesmo.
sábado, 26 de junho de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
No som da web... Cam?

A modernidade é demais.
Te conheci num site.
Conversamos no msn.
Tecnologia de telefone móvel para delírios.
Volto para a net.
O facebok me dá outra dimensão do real, mais real mesmo. Necessária para os pés no chão da minha cidade.
Caio da cama e ligo a bateria do portátil.
Amanhã minha conexão religa e se esvai.
Almejo o oceano do tamanho de um lago, de centímetros, como você disse.
Sonho com o fim da energia elétrica.
Queria plantar cabos.
Viva a Vivo em Angola!
Adoro te ligar, te acordar e escutar um: beijinhos!!!!
O melhor é, depois do ato de sacanagem com Morfeu, receber um telefonema seu. Mesmo sem entender nada, me sinto alegre dirigindo sozinha pela noite da cidade que não quer telefonema nenhum.
O Jogo das Garras
Para João
Alvorada. Eu estava deitada quando o vi pela primeira vez. Não dei importância, nessa hora todos os gatos são pardos. Me lançou um longo olhar e partiu. Pra mim não é, pensei, estou deitada na Arvore da Criação e quem passa por mim sem parar não vale a pena. Rosnei, olhei para o horizonte e sorri. E ele sumiu.
Passaram-se semanas e me esqueci dele. Tantas paisagens, tantas ações cotidianas a serem cumpridas, não tinha tempo para delírios.
Acordei com uma pata em meu pescoço. Não tinha forças para gritar. Era o mesmo estranho. Diga quem és! Falamos juntos. E silenciamos juntos. Suas garras me metiam medo e me enlouqueciam. Vi que de fato o estranho não pertencia ao nosso grupo. Me alegrei por isso, todos ali me pareciam óbvios demais. Virei a cabeça e percebi um pequeno pássaro que nos observava ao longe. Estremeci por saber do auguro do pássaro. Tinha que manter a força, respondi apenas com vogais: Aaaaaaaooooooooooooo... Ele não retrocedeu. Aaaaaaaaoooooaaaaaa.... Ele me olhou nos olhos e tirou apenas a pata esquerda de cima de mim. A direita levou até o meu ombro direito, já trêmulo, confuso de tanta hesitação. Nunca tinha me deparado com um ser assim, distinto no espelho e íntimo na distância. Agora estou perdida. Sem pressa ele se pôs no chão e me disse, baixinho – Estamos tramados. – Perdeu-se na savana.
Perdi-me. Horas e horas sem um movimento, sem um pensamento além da tal trama. Que enredo seria esse?
Eu e minha Arvore da Criação. Sua sombra e sua determinação sobre o meu ciclo. Eu e meu lugarejo. Eu e minhas horas de tédio e de pavor, ociosa no horror do eterno esperar algum sinal de vida. Da minha vida ou da vida dele. Pelo menos de um pedaço da sua garra. Um filete de sangue meu, almejando cair na beira do abismo.
Nova alvorada, todos os dias.
- Te proponho um jogo.
- Jogo?
- Sim, temos os dois as armas.
- Não tenho arma alguma, não levo nada.
- Tens o necessário.
- Não tenho força.
- Garra.
- Como?
- Tens garra. É isso que me importa. Nosso jogo será um jogo de garras.
Espantei-me como nunca. Um jogo de garras? Eu que passei a vida inteira sendo reprimida por possuir as tais garras deveria agora mostrá-las? Como? Acho que não saberia mais olhar para as minhas patas.
- O que foi? Tens medo?
- Sim, muito medo. Uma vez cacei um pequeno gambá. Não oferecia perigo algum e por isso virei meu rosto. Fechei os olhos e pensei numa água, bem fresca. Acordei com essa marca que me arrancou o pêlo do lombo. Matei-o mas não o comi.
Era o que eu queria fazer com ele. Mata-lo, mas não me apetecia por a mesa para jantar. Nunca nenhum macho me pôs naquela condição. Sou forte e...
- Corre pequena, corre. Quero te ver fugir. Quando você pensar que chegou no final estarei lá, rindo da sua pressa.
Mas eu não sorri para ele. Tinha um tom severo e ríspido. Não estava para brincadeiras, era o necessário para o momento. Ele, ao contrário, parecia um filhote.
- Vou te contar um segredo. A vida não é nada difícil A vida é apenas... Interessante.
E olho para a minha arvore, a que eu acreditava ter sido a primeira do mundo.
- Você leva as coisas à serio demais. Foi criada no circo, no picadeiro. Eu conquistei a África, não necessito de platéias.
Como ele sabia disso?
- Tire suas luvas, não és gata. Ilumita-te com seu primitivo e devore, sem pensar.
Pela primeira vez comi um leão. E tive tanto prazer que tenho medo de matar todos ao meu redor.
Entardecer. Meu espelho fugiu-me das mãos. Não posso reter mais nadas, minhas garras estão imensas, incontroláveis. Era o jogo da eternidade.
Alvorada. Eu estava deitada quando o vi pela primeira vez. Não dei importância, nessa hora todos os gatos são pardos. Me lançou um longo olhar e partiu. Pra mim não é, pensei, estou deitada na Arvore da Criação e quem passa por mim sem parar não vale a pena. Rosnei, olhei para o horizonte e sorri. E ele sumiu.
Passaram-se semanas e me esqueci dele. Tantas paisagens, tantas ações cotidianas a serem cumpridas, não tinha tempo para delírios.
Acordei com uma pata em meu pescoço. Não tinha forças para gritar. Era o mesmo estranho. Diga quem és! Falamos juntos. E silenciamos juntos. Suas garras me metiam medo e me enlouqueciam. Vi que de fato o estranho não pertencia ao nosso grupo. Me alegrei por isso, todos ali me pareciam óbvios demais. Virei a cabeça e percebi um pequeno pássaro que nos observava ao longe. Estremeci por saber do auguro do pássaro. Tinha que manter a força, respondi apenas com vogais: Aaaaaaaooooooooooooo... Ele não retrocedeu. Aaaaaaaaoooooaaaaaa.... Ele me olhou nos olhos e tirou apenas a pata esquerda de cima de mim. A direita levou até o meu ombro direito, já trêmulo, confuso de tanta hesitação. Nunca tinha me deparado com um ser assim, distinto no espelho e íntimo na distância. Agora estou perdida. Sem pressa ele se pôs no chão e me disse, baixinho – Estamos tramados. – Perdeu-se na savana.
Perdi-me. Horas e horas sem um movimento, sem um pensamento além da tal trama. Que enredo seria esse?
Eu e minha Arvore da Criação. Sua sombra e sua determinação sobre o meu ciclo. Eu e meu lugarejo. Eu e minhas horas de tédio e de pavor, ociosa no horror do eterno esperar algum sinal de vida. Da minha vida ou da vida dele. Pelo menos de um pedaço da sua garra. Um filete de sangue meu, almejando cair na beira do abismo.
Nova alvorada, todos os dias.
- Te proponho um jogo.
- Jogo?
- Sim, temos os dois as armas.
- Não tenho arma alguma, não levo nada.
- Tens o necessário.
- Não tenho força.
- Garra.
- Como?
- Tens garra. É isso que me importa. Nosso jogo será um jogo de garras.
Espantei-me como nunca. Um jogo de garras? Eu que passei a vida inteira sendo reprimida por possuir as tais garras deveria agora mostrá-las? Como? Acho que não saberia mais olhar para as minhas patas.
- O que foi? Tens medo?
- Sim, muito medo. Uma vez cacei um pequeno gambá. Não oferecia perigo algum e por isso virei meu rosto. Fechei os olhos e pensei numa água, bem fresca. Acordei com essa marca que me arrancou o pêlo do lombo. Matei-o mas não o comi.
Era o que eu queria fazer com ele. Mata-lo, mas não me apetecia por a mesa para jantar. Nunca nenhum macho me pôs naquela condição. Sou forte e...
- Corre pequena, corre. Quero te ver fugir. Quando você pensar que chegou no final estarei lá, rindo da sua pressa.
Mas eu não sorri para ele. Tinha um tom severo e ríspido. Não estava para brincadeiras, era o necessário para o momento. Ele, ao contrário, parecia um filhote.
- Vou te contar um segredo. A vida não é nada difícil A vida é apenas... Interessante.
E olho para a minha arvore, a que eu acreditava ter sido a primeira do mundo.
- Você leva as coisas à serio demais. Foi criada no circo, no picadeiro. Eu conquistei a África, não necessito de platéias.
Como ele sabia disso?
- Tire suas luvas, não és gata. Ilumita-te com seu primitivo e devore, sem pensar.
Pela primeira vez comi um leão. E tive tanto prazer que tenho medo de matar todos ao meu redor.
Entardecer. Meu espelho fugiu-me das mãos. Não posso reter mais nadas, minhas garras estão imensas, incontroláveis. Era o jogo da eternidade.
sábado, 21 de novembro de 2009
Diário sem data. Por temporadas e sensações
Vila Nova de Gaia, Portugal – Junho de 2009
Portugal: meu Porto. Uma Oxum morando na praia, uma estrangeira, a infância no Velho Continente. A transposição do virtual para o real, do sonho para a construção, das palavras para o trabalho. Sou Florbela, vinho e queijo do Alentejo. Sou saudade de terreiro e terrenos. Um olhar na varanda chuvosa anuncia o desconhecido de ruas avantajadas e obscuras para mim. O sotaque ordena que a solidão se encoste e as poucos assento-me em uma cadeira. Recomeço tudo. Aprendo a andar, a falar, a escrever. Aprendo a apertar botões. Aprendo amar e lavar louças. A reconhecer em mim a calma e o desejo de que o rio, naturalmente, corra para o mar.
Na minha cidade me perdia, deliciosamente, nos outros. Aqui observo quem sou realmente, sem a dispersão do espelho da amizade e do acolhimento. Se eu chorar é uma mera conseqüência da fragilidade de ser sozinha e única. Queria ser um produto em série.
Que vontade de correr!!!! Vontade boa.
Evolução da relação:
Antes eu era querida – agora sou puta.
Antes eu era a mulher mais linda q ele tinha visto – agora sou gorda.
Conclusão: sou uma puta gorda em menos de um mês!!!
Grande evolução. Como tudo por aqui: bem rápido.
Tenho sonhado muito. Meu inconsciente tem mostrado seu trabalho de forma presente, cotidianamente. Por que será?
Hoje resolvo o mistério da quizila.
Referência: 16 de junho
O egoísmo é o tom dominante da humanidade, não há variação ou subdominante. Tudo se resume à melodia do egoísmo.
Me sinto tão melodicamente melancólica.
Outras cidades portuguesas, 10 de junho
Busco na forma o conteúdo. Saco vazio pode sim parar em pé.
Agora consigo declarar a minha independência: viva a solidão! Gosto de ir e vir sem responsabilidade, sem laços ou receios. Se me assaltarem não perco nada, nem a vida ou a ida para a próxima estação. Vou a pé mesmo, sem pressa de chegar no horário marcado. Ele que se foda, vai me esperar até meus pés cansarem e ficarem com bolhas terríveis.
Estou me acostumando a um novo tipo de relacionamento: nunca te vi sempre te amei. Quando mais exótico melhor, quero mergulhar no diferente, na inconstância e na distância de toda e qualquer segurança. Quero não entender a fala do outro para não me entender no espelho.
E se eu parasse de fazer teatro?????
Hoje eu me leio e falo: por que n escrevi mais? Uma pena, gostei do que li. Talvez tenha sido a tônica da minha viagem. Por que n produzi mais? Por que n passeei mais? Por que não gozei mais? O meu problema é a preguiça....
Vila Nova de Gaia, Portugal – Junho de 2009
Portugal: meu Porto. Uma Oxum morando na praia, uma estrangeira, a infância no Velho Continente. A transposição do virtual para o real, do sonho para a construção, das palavras para o trabalho. Sou Florbela, vinho e queijo do Alentejo. Sou saudade de terreiro e terrenos. Um olhar na varanda chuvosa anuncia o desconhecido de ruas avantajadas e obscuras para mim. O sotaque ordena que a solidão se encoste e as poucos assento-me em uma cadeira. Recomeço tudo. Aprendo a andar, a falar, a escrever. Aprendo a apertar botões. Aprendo amar e lavar louças. A reconhecer em mim a calma e o desejo de que o rio, naturalmente, corra para o mar.
Na minha cidade me perdia, deliciosamente, nos outros. Aqui observo quem sou realmente, sem a dispersão do espelho da amizade e do acolhimento. Se eu chorar é uma mera conseqüência da fragilidade de ser sozinha e única. Queria ser um produto em série.
Que vontade de correr!!!! Vontade boa.
Evolução da relação:
Antes eu era querida – agora sou puta.
Antes eu era a mulher mais linda q ele tinha visto – agora sou gorda.
Conclusão: sou uma puta gorda em menos de um mês!!!
Grande evolução. Como tudo por aqui: bem rápido.
Tenho sonhado muito. Meu inconsciente tem mostrado seu trabalho de forma presente, cotidianamente. Por que será?
Hoje resolvo o mistério da quizila.
Referência: 16 de junho
O egoísmo é o tom dominante da humanidade, não há variação ou subdominante. Tudo se resume à melodia do egoísmo.
Me sinto tão melodicamente melancólica.
Outras cidades portuguesas, 10 de junho
Busco na forma o conteúdo. Saco vazio pode sim parar em pé.
Agora consigo declarar a minha independência: viva a solidão! Gosto de ir e vir sem responsabilidade, sem laços ou receios. Se me assaltarem não perco nada, nem a vida ou a ida para a próxima estação. Vou a pé mesmo, sem pressa de chegar no horário marcado. Ele que se foda, vai me esperar até meus pés cansarem e ficarem com bolhas terríveis.
Estou me acostumando a um novo tipo de relacionamento: nunca te vi sempre te amei. Quando mais exótico melhor, quero mergulhar no diferente, na inconstância e na distância de toda e qualquer segurança. Quero não entender a fala do outro para não me entender no espelho.
E se eu parasse de fazer teatro?????
Hoje eu me leio e falo: por que n escrevi mais? Uma pena, gostei do que li. Talvez tenha sido a tônica da minha viagem. Por que n produzi mais? Por que n passeei mais? Por que não gozei mais? O meu problema é a preguiça....
Chutes e pontapés
Para Miguel
Vejo canelas todo o tempo. Canelas finas, grossas, tortas e descoradas. Rápidas e mancas. Algumas vezes sinto vontade de toca-las mas não posso, sei que seria chutado. Aliás sei que nasci para ser chutado. Sinto algum prazer em levar um pequeno empurrão, a não ser para acordar. Fico assustado e paraliso, como que suspenso no tempo. Depois me ponho a correr, desafiando notas musicais irregistráveis ao ouvido humano.
Ontem me apaixonei por uma canalha. Sim, ela balança o rabo, apenas passa na pequena travessa como quem vai para o mar. Cheiro seu rastro e lembro da forma mais bonita que vi na vida. A forma de uma grande mão grande em minha cabeça. Era de uma leveza e de uma constância aquele cafuné que me confundi com o chão. Fui amolecendo, amolecendo até me desmanchar em passeio de rua.
Quase não enxergo mais, não entendo. O dia e a noite já me são indiferentes, só noto a brisa fria que me gela as orelhas. E bato as orelhas como as pombas batem as asas, rápidas, uma técnica bem particular que desenvolvi ao longo de todos esses anos vivendo em esquinas.
Sim, um cão de rua deveria apenas dormir em esquinas, para que todos os cantos possam ser vigiados pelo sonho de estar à salvo.
Falta de comida não tenho, tenho falta de água. O lixo seca rápido e as ladeiras escorrem todo o meu sumo perdido. Por isso só posso ser alegre na chuva, apesar da dor de ouvido posterior.
Mas voltando às canelas... Ah, as canelas coloridas me encantam. Os tecidos vivos tornam-se machas multicores quando corremos na direção oposta das canelas. Agora então que quase não vejo mais minha memória despojou-se de todo pudor e criou uma via direta para a imaginação. Minhas canelas agora são frangos, morangos ou pedras. São amarelas, bem clarinhas, que se transformam em imensas caixas de papelão batendo no chão. Terminam como um dos meus maiores amores: rodas de carro. Mas rodas de carro paradas, em movimento não me interessam.
Adoro assustar pessoas distraídas, preocupadas demais com as próprias canelas e esquecidas demais com tudo aquilo que não esteja no seu corpo. Ter duas canelas é apenas uma entre tantas outras limitações da espécie humana. É bem grave na verdade, dificulta o ato de correr. E correr significa liberdade.
Mesmo quase cego me propus a correr todos os dias, até quando estou faminto. Ser livre é poder ter fome e não ter raiva disso. É saber que no lixo está o meu banquete e eu agradeço por isso. Balanço feliz o meu rabo para a primeira canela que vejo acompanhada de outra canela à espera de mais um chute que me leve para o canteiro de flores bebês . Ou que me desperte a vontade de me pôr à liberdade.
Vejo canelas todo o tempo. Canelas finas, grossas, tortas e descoradas. Rápidas e mancas. Algumas vezes sinto vontade de toca-las mas não posso, sei que seria chutado. Aliás sei que nasci para ser chutado. Sinto algum prazer em levar um pequeno empurrão, a não ser para acordar. Fico assustado e paraliso, como que suspenso no tempo. Depois me ponho a correr, desafiando notas musicais irregistráveis ao ouvido humano.
Ontem me apaixonei por uma canalha. Sim, ela balança o rabo, apenas passa na pequena travessa como quem vai para o mar. Cheiro seu rastro e lembro da forma mais bonita que vi na vida. A forma de uma grande mão grande em minha cabeça. Era de uma leveza e de uma constância aquele cafuné que me confundi com o chão. Fui amolecendo, amolecendo até me desmanchar em passeio de rua.
Quase não enxergo mais, não entendo. O dia e a noite já me são indiferentes, só noto a brisa fria que me gela as orelhas. E bato as orelhas como as pombas batem as asas, rápidas, uma técnica bem particular que desenvolvi ao longo de todos esses anos vivendo em esquinas.
Sim, um cão de rua deveria apenas dormir em esquinas, para que todos os cantos possam ser vigiados pelo sonho de estar à salvo.
Falta de comida não tenho, tenho falta de água. O lixo seca rápido e as ladeiras escorrem todo o meu sumo perdido. Por isso só posso ser alegre na chuva, apesar da dor de ouvido posterior.
Mas voltando às canelas... Ah, as canelas coloridas me encantam. Os tecidos vivos tornam-se machas multicores quando corremos na direção oposta das canelas. Agora então que quase não vejo mais minha memória despojou-se de todo pudor e criou uma via direta para a imaginação. Minhas canelas agora são frangos, morangos ou pedras. São amarelas, bem clarinhas, que se transformam em imensas caixas de papelão batendo no chão. Terminam como um dos meus maiores amores: rodas de carro. Mas rodas de carro paradas, em movimento não me interessam.
Adoro assustar pessoas distraídas, preocupadas demais com as próprias canelas e esquecidas demais com tudo aquilo que não esteja no seu corpo. Ter duas canelas é apenas uma entre tantas outras limitações da espécie humana. É bem grave na verdade, dificulta o ato de correr. E correr significa liberdade.
Mesmo quase cego me propus a correr todos os dias, até quando estou faminto. Ser livre é poder ter fome e não ter raiva disso. É saber que no lixo está o meu banquete e eu agradeço por isso. Balanço feliz o meu rabo para a primeira canela que vejo acompanhada de outra canela à espera de mais um chute que me leve para o canteiro de flores bebês . Ou que me desperte a vontade de me pôr à liberdade.
Declínio para o sublime
Sou sem medida. Toda vez que vou colocar sorvete no copo o sorvete cai no chão. É sempre sorvete demais. Quando começo a cantar todo dizem: fala baixo! Mas se estou cantando como posso FALAR baixo? Isso me irrita, usar uma coisa para outra coisa que não é aquela coisa. As pessoas vivem fazendo isso, confundindo falar com cantar.
Não sei, quando estou pulando na cama da mamãe parece que eu deixo de respirar. É como se eu parasse de existir e ficasse só pulando e rindo, pra cima e pra baixo batendo os braços. Alegria sem entender nada, pra não entender nada. E depois só consigo respirar e não dá nem pra falar porque não tenho fôlego e também é muito cansativo, nossa, fico exausta. Viver é mesmo muito cansativo. Começo a perder o ar e logo acho que é castigo porque fiz pula pula na cama da minha mãe e ela já me disse que eu não posso fazer mas gosto tanto que não consigo não fazer! Que medo de morrer porque não consigo respirar mais na cama dela, é melhor descer antes que a culpa me descubra em cima do pula pula disfarçado de lençol.
Uma vez Marcelo, meu irmão, me disse algo sobre a lógica. Achei tudo muito confuso, não consigo apresentar as coisas assim. Só consigo mesmo imaginar como seria o mundo se todos voássemos em borboletas verdes. Nunca vi uma borboleta verde. Acho que tem uma no desenho do Peter Pan. Marcelo sempre me diz coisas sérias como, por exemplo, que não posso pintar a cama da minha irmã mais velha com a tinta que ela acabou de ganhar. Na verdade não quero saber, quero só enfiar meus dedos nos potes de tinta e criar os caminhos das borboletas no meio da serra. É bom. Acho que ficou bem melhor depois que eu a pintei. Marcelo é meu irmão ou meu pai?
Sempre me dizem que sou sem limite. Mas consigo ver a ponta das minhas mãos, apesar de que quando deixo as unhas crescerem as minhas mãos ficam muuuuuito maiores.
É muito sério essa coisa de imaginar coisas. Já imaginei um grande hipopótamo sentado no meu lugar da escola. Aposto que seria castigada por todas as coisas que Marcelo fez. E não poderia comer jabuticabas ou pontas de lápis. Eu morreria, com certeza, é muito violento.
Fiz bolos de barro no quintal da casa da vovó. Usei folhas secas, grama e alguns galhos secos para mudar os bolos de lugar. Tudo na natureza é muito grande e não tenho espaço dentro dela. Resolvi comer os bolos. Tavam gostosos mas decididamente não gosto do barro muito seco, prefiro com um bocado de água do mar. Fecho os olhos e abro a gaiola das minhas gaivotas. Elas são passarinhos misturados com patos. E não bicam, apenas tocam gaitas e sorriem. Toda vez que quero ser feliz procuro em mim um bolo de terra da casa da minha avó, apesar da minha mãe ter ficado muito brava comigo nesse dia e quase ter me batido mesmo de verdade.
Não me interesso por nada. Minha medida é o mundo. Tudo que faço é como quero e é necessário. Não têm forma de nada. Só sei que é muito, muitíssimo mesmo, sem comparação com nada e com ninguém. Fechar os olhos, passar a língua nos dentes e arrumar a coluna. Tudo grande, dentro de mim. Simplesmente igual a mim. Não quero dar nomes ou determinar o que cada um é. Quero estar disposta a ser.
Hoje não faço varais na escola e vou comer pouco. Talvez cole um papel na blusa de algum colega dormindo, ou quebre um copo na cozinha lá de casa. Hoje puxo a orelha de um cão pra me animar.
Mesmo antes de aprender a ler contava estórias escritas nos livros. E sem desenhos. Sentava no primeiro degrau da escada da cozinha e via a sopa transformar-se em sonho estomacal. Adoro macarrão em forma de estrelas. Como uma constelação.
Ainda na culinária uma receita infalível para uma boa porcaria: pegue todos cremes de cabelo da sua avó, pastas de dentes, pomadas de pé, pomadas de pele, mercúrio cromo, pomadas de espinha, esmalte, pastilhas de garganta (não se esqueça de chupar todo o açúcar antes e depois cuspi-las) e tudo cremoso ou pastoso que você encontrar. Arrume um jarro grande mas com a boca pequena, discreto, aquele que fica no canto da casa dela. Misture tudo com os dedos lá dentro e cuspa as pastilhas ao final. Deixe escondido até alguém descobrir. Fuja das palmadas dando risadas, sempre. Cantando.
Não sei, quando estou pulando na cama da mamãe parece que eu deixo de respirar. É como se eu parasse de existir e ficasse só pulando e rindo, pra cima e pra baixo batendo os braços. Alegria sem entender nada, pra não entender nada. E depois só consigo respirar e não dá nem pra falar porque não tenho fôlego e também é muito cansativo, nossa, fico exausta. Viver é mesmo muito cansativo. Começo a perder o ar e logo acho que é castigo porque fiz pula pula na cama da minha mãe e ela já me disse que eu não posso fazer mas gosto tanto que não consigo não fazer! Que medo de morrer porque não consigo respirar mais na cama dela, é melhor descer antes que a culpa me descubra em cima do pula pula disfarçado de lençol.
Uma vez Marcelo, meu irmão, me disse algo sobre a lógica. Achei tudo muito confuso, não consigo apresentar as coisas assim. Só consigo mesmo imaginar como seria o mundo se todos voássemos em borboletas verdes. Nunca vi uma borboleta verde. Acho que tem uma no desenho do Peter Pan. Marcelo sempre me diz coisas sérias como, por exemplo, que não posso pintar a cama da minha irmã mais velha com a tinta que ela acabou de ganhar. Na verdade não quero saber, quero só enfiar meus dedos nos potes de tinta e criar os caminhos das borboletas no meio da serra. É bom. Acho que ficou bem melhor depois que eu a pintei. Marcelo é meu irmão ou meu pai?
Sempre me dizem que sou sem limite. Mas consigo ver a ponta das minhas mãos, apesar de que quando deixo as unhas crescerem as minhas mãos ficam muuuuuito maiores.
É muito sério essa coisa de imaginar coisas. Já imaginei um grande hipopótamo sentado no meu lugar da escola. Aposto que seria castigada por todas as coisas que Marcelo fez. E não poderia comer jabuticabas ou pontas de lápis. Eu morreria, com certeza, é muito violento.
Fiz bolos de barro no quintal da casa da vovó. Usei folhas secas, grama e alguns galhos secos para mudar os bolos de lugar. Tudo na natureza é muito grande e não tenho espaço dentro dela. Resolvi comer os bolos. Tavam gostosos mas decididamente não gosto do barro muito seco, prefiro com um bocado de água do mar. Fecho os olhos e abro a gaiola das minhas gaivotas. Elas são passarinhos misturados com patos. E não bicam, apenas tocam gaitas e sorriem. Toda vez que quero ser feliz procuro em mim um bolo de terra da casa da minha avó, apesar da minha mãe ter ficado muito brava comigo nesse dia e quase ter me batido mesmo de verdade.
Não me interesso por nada. Minha medida é o mundo. Tudo que faço é como quero e é necessário. Não têm forma de nada. Só sei que é muito, muitíssimo mesmo, sem comparação com nada e com ninguém. Fechar os olhos, passar a língua nos dentes e arrumar a coluna. Tudo grande, dentro de mim. Simplesmente igual a mim. Não quero dar nomes ou determinar o que cada um é. Quero estar disposta a ser.
Hoje não faço varais na escola e vou comer pouco. Talvez cole um papel na blusa de algum colega dormindo, ou quebre um copo na cozinha lá de casa. Hoje puxo a orelha de um cão pra me animar.
Mesmo antes de aprender a ler contava estórias escritas nos livros. E sem desenhos. Sentava no primeiro degrau da escada da cozinha e via a sopa transformar-se em sonho estomacal. Adoro macarrão em forma de estrelas. Como uma constelação.
Ainda na culinária uma receita infalível para uma boa porcaria: pegue todos cremes de cabelo da sua avó, pastas de dentes, pomadas de pé, pomadas de pele, mercúrio cromo, pomadas de espinha, esmalte, pastilhas de garganta (não se esqueça de chupar todo o açúcar antes e depois cuspi-las) e tudo cremoso ou pastoso que você encontrar. Arrume um jarro grande mas com a boca pequena, discreto, aquele que fica no canto da casa dela. Misture tudo com os dedos lá dentro e cuspa as pastilhas ao final. Deixe escondido até alguém descobrir. Fuja das palmadas dando risadas, sempre. Cantando.
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